Fome de Pele

Fome de Pele
Letra e música: Matheus Souto

Feito bebida que te molha a boca
mas não mata tua sede
é o mundo virtual
é a vida na rede

Chegando o inverno e já faz tanto frio
Meu coração congela
Porque eu não sinto o teu calor
Te olhando pela tela
Te olhando pela tela

Eu quero multidões
nem que seja nós dois

Aglomerados em frente à fogueira
Se aprochegue um pouquinho
Oi, que saudade! Aquela lua cheia
E um copo de vinho

Porque é preciso a presença do olhar
Pra que o amor se revele
É bem juntinho que queremos estar
Eu tenho fome de pele

Eu quero multidões
nem que seja nós dois

Novo Progresso

Novo Progresso
Letra e música: Matheus Souto

O ser humano faz infeliz toda sua gente
Polui o rio, mata a nascente,
Lava o chão com água corrente,
E então começa a reclamar:

“Ô clima doido, esse calor tá de matar!
E essa seca, onde é que vai parar?!”

E o progresso esteve aqui só de passagem
Transpôs o rio, fez a barragem
E o Velho Chico na estiagem
Fica fino feito um fio

Não tem mais peixe, já não é tão Doce o Rio…
Querem queimar toda a floresta do Brasil

A pedra é dura
Mas o garimpo é uma doença
Explode a Terra, a lama é densa
Se existe algo de sagrado essa gente nunca viu!

Riqueza de Verdade

Se engana quem diz que ‘o que se tem é o que te faz feliz’.
Bom mesmo, nessa vida, é ser dono próprio nariz

O dinheiro é doce, mas melhor te avisar:
Quando a mosca cai no mel não consegue mais voar

Nada é de fato meu
Nem esse corpo que o mundo me deu
Melhor é nem me preocupar
Eu sei que eu vou conseguir se eu precisar

A Terra é da Terra e o seu fruto ela nos dá
Não existe ‘minha terra’
Nem mesmo se eu cercar

Porque riqueza de verdade acontece quando alguém
Não deseja nada mais do que aquilo que já tem

Nada é de fato seu
Nem esse corpo que o mundo te deu
Melhor é nem se apegar
Você tá só de passagem aqui
Nesse lugar

(Voz de Ailton Krenak)

“O modo de acessar o território: coletivo;
A governança desse território: compartilhada;
A co-responsabilidade acerca de todos os eventos que acontecem dentro desse território é a marca do modo de gestão territorial indígena.

Dentro de um território indígena, ninguém é dono de um lote. E, também, você não tem herança. Você nasce, vive e morre.
Não tem ‘poupança’, e também não tem sentido ‘aposentadoria’.

É difícil pra alguém que nasceu fora de um sistema de Indigenato entender isso.
Ninguém mais vive o uso coletivo de território nenhum, é tudo privado.
Daí já entrou a idéia de ‘propriedade’ a ideia da ‘herança’, que é a mentalidade capitalista: Tudo é mercadoria, até a vida.

O Grande dilema hoje no Brasil é se o cara vai aposentar depois de morto ou ainda vivo. É muito mau gosto, e muita burrice, também.”

Blues à Brasileira

Blues à Brasileira
Letra e música: Matheus Souto

Desempregado há mais de um ano,
O meu diploma é só um papel
Eu penhoro as minhas roupas pra pagar o aluguel
Me cobram tanto imposto faça chuva ou faça sol,
E tudo o que eu recebo é estádio de futebol

Eu tenho o blues
O blues pra vida inteira
Eu tenho o blues
O Blues à Brasileira

Na escola do meu filho já roubaram até a merenda
O Índio quer floresta, o Blairo Maggi quer fazenda
O tinhoso no planalto, Edir Macedo no altar
Já não batem as panelas nem pro áudio do Jucá

Eu tenho o blues
O blues pra vida inteira
Eu tenho o blues
O Blues à Brasileira

Quer saber, eu já tentei de tudo
Eu juntei todo mundo e fomos protestar
Tem gente na fila do SUS, rezando pra Jesus
E o Aécio Lá: “HA HA HA”

A maconha é ilegal, vem carregada de amônia
O deputado é grileiro de terras na Amazônia
O ministro da fazenda é funcionário do Itaú
Lá vem a JBS pra botar no nosso *$#*

Eu tenho o blues […] O Blues à Brasileira

Não adianta nada ir votar, abaixo-assinar, nem foto no perfil
Já não confio em juíz e até magia eu fiz pra salvar o Brasil

Tem traficante no Senado, vendedor de cocaína
Não param de aumentar o preço da gasolina
Eu não sei mais o que fazer, tanta sujeira e tanta lama
Aquele abraço pra SAMARCO e pro povo de Mariana/MG
(E aí, Vale?)

Eu tenho o blues […] O Blues à Brasileira

À Deriva

À Deriva
Letra e música: Matheus Souto

As vezes me sinto meio morto, morrendo, ou algo assim.
Me sinto como na iminência de que algo vai ter fim
Sinto um afogar no motor do peito
Por um minuto eu me deito e já não mais estou dentro de mim
O mundo gira, o tempo passa, eu me admiro e me desfaço
Eu vou chegando ao fim do dia.
E há um buraco em meu peito a tilintar beleza fria
Que o tempo não tenha sido em vão.

(Se dê) A Paz

(Se dê) A Paz
Letra e música: Matheus Souto

Do chão, a água esquenta e evapora
Levanta vôo e vai embora
E quando esfria ela cai

E a chuva, sedenta folha satisfaz
E nascem outras folhas mais
Mas no outono elas caem

A Terra, girando em quatro estações
Faz primaveras e verões
Chega o inverno e o frio cai, cai.

E tudo em equilíbrio imaculado
Tecendo a Vida em Paz.

Mas o Homem, em sua busca só destrói
O solo sangra e a Terra dói
O rio se seca e a mata cai

Tão seco, a fruta já não cresce mais
E o homem já não come mais
Mas sem comer o homem cai, cai.

E até que volte a se equilibrar
O Homem não terá mais Paz.

E eu agora canto essa canção
pedindo
Se dê a Paz.

O Vagalume

O Vagalume
Letra e música: Matheus Souto

Era uma vez um menininho assustado
Que sonhava em um dia ser capaz
De abandonar aquela vida acorrentado
E deixar todos os medos pra trás

Mas uma voz teimava em lhe dizer
‘Cuidado, a vida ainda te engole meu rapaz.
O que faz você pensar que você pode
fazer melhor que tantos homens e outros mais?’

Mas o moleque tava tão determinado
Sequer um dia ele ouviu aquela voz
Sua vontade foi um martelo na corrente
Rompeu os elos, desatou aqueles nós.

E então foi voar para um novo mundo
Que era o seu lugar e o de todo mundo.

Mil maravilhas se estendiam aos seus pés
Machu Picchu, o Redentor, Taj Mahal
As gigantescas pirâmides em Gizé
Jardins suspensos, e a floresta tropical

Mas as pessoas ao redor ainda insistiam
Que a vida eram as sombras na caverna
E o moleque ouviu as vozes que o prendiam
Ecoando nos ouvidos da galera

Indignado com aquela condição
Pensou em ser na escuridão um vagalume
Pegou caneta, o papel e o violão
E amplificou pra aumentar o volume.

Então pôs-se a cantar pra acordar o mundo
E calar as vozes que os faziam surdos
Logo iluminou o escuro profundo
E agora o mundo canta, canta, canta

Então pôs-se a cantar pra acordar o mundo
E calar as vozes que os faziam surdos
Logo iluminou o escuro profundo
E agora o mundo canta, canta, canta

Sobre Deus e o Diabo

Sobre Deus e o Diabo
Letra e música: Matheus Souto

São 4 da manhã
E lá está Deus trabalhando
preparando mais um dia
Pros seus filhos mundanos

Enquanto isso o diabo
apenas procrastina
Adiando na Terra
A hora da faxina

Por isso sobram
Bandidos, deputados
Senadores, Delegados
Charlatões e viciados
Corações apaixonados
E eu

Finalzinho da tarde
E o diabo preparado pra
Mais uma noite sinistra
Com open-bar de pecado

Enquanto Deus redesenha
O seu cartão de natal
Preparando na Terra
O juízo final

Por isso nascem
Santos e beatos
Pretos, brancos e mulatos
Todos num sentido lato
Coroando os bons atos
E eu
E o Diabo
E Deus
Os meus acertos
E os seus
E os nossos erros
Onde vão nos levar?

Buracos Negros

Buracos Negros
Letra: Matheus Souto

Eu e você:
Buracos negros no espaço-tempo,
Pontos singulares condensados em um momento.
Separamos um futuro de um passado,
Infinitas possibilidades no universal jogo de dados.

Eu e você:
O Princípio da Incerteza,
Cartas de Tarô espalhadas sobre a mesa.
Caminhamos entre os bons e os maus
O poder do livre-arbítrio envolvido na Teoria do Caos.

(In)Completo

(In)Completo
Letra e música: Matheus Souto

Eu sou a morte e o pesar
Um estranho a caminhar
Eu sou o norte sem calor
Sou só abraços sem amor

Eu sou trevas,
Sou sombra,
Eu sou dor.

Eu sou a mão sem polegar
Um condenado a esperar
Palavras belas sem leitor
Eu vou aonde o vento for

Eu sou frases
Em um túmulo
Sem flor.

Mas posso ouvir você cantar
Ver doce a fruta e lhe provar
Posso tocar, curar a dor
Sentir o cheiro de cada flor

Posso vibrar,
Correr, criar,
e ver o sol se pôr.

Posso ser luz até cegar
Ser o infinito e ter um par
Posso pintar e ser a cor
Ser a semente do que é o amor

Posso ser vida
E ainda viver
Quando eu me for.